Escrever quando o medo é maior do que a vontade
Quando as pessoas imaginam um escritor a trabalhar, costumam pensar em inspiração — numa ideia que chega de repente e exige ser escrita. E sim, esses momentos existem. Mas há muitos outros dias. Dias em que abro o computador, olho para o cursor a piscar numa página em branco, e sinto o medo a ocupar todo o espaço que devia ser da vontade.
Durante a escrita de Entre Mundos, houve semanas inteiras assim. Dias em que me perguntava se a história interessaria a alguém, se Gabrielle era suficientemente real, se eu tinha o direito de escrever sobre mundos, magia e segredos quando havia tantos livros maravilhosos já escritos sobre exactamente isso. O medo tem uma voz muito convincente — e ela adora aparecer precisamente quando mais precisamos de confiança.
Com o tempo, percebi algo importante: esse medo não era sinal de que eu devia parar. Era sinal de que me importava. Não temos medo de coisas que não nos importam. E quanto mais a história significava para mim, mais espaço o medo parecia reivindicar.
O que mudou tudo não foi deixar de sentir medo — isso, sinceramente, nunca aconteceu. O que mudou foi separar duas coisas que, durante muito tempo, vivi como uma só: escrever e julgar o que escrevo. Comecei a permitir-me escrever frases más, parágrafos confusos, capítulos que sabia que iria reescrever depois. O importante era aparecer, todos os dias, mesmo que fosse apenas para uma frase.
"O medo não pede permissão para aparecer. Mas também não tem o poder de decidir o que escrevemos a seguir."
Terminar este livro não fez o medo desaparecer. Continuo a sentir essa mesma voz sempre que começo algo novo. Mas aprendi a reconhecê-la, a deixá-la falar, e a continuar a escrever mesmo assim — porque a vontade, ainda que mais pequena nalguns dias, continua ali, à espera da sua vez.
Se há algo dentro de ti que precisa de ser escrito, pintado, dito — e o medo está a ocupar todo o espaço hoje — espero que estas palavras te lembrem que ele não tem de ter a última palavra. Só a primeira.