Universo

Londres como palco — Por que escolhi esta cidade para a saga

Escolher o cenário de uma história é, na prática, escolher mais uma personagem. E desde o início soube que Entre Mundos precisava de uma cidade que já carregasse as suas próprias camadas de história — uma cidade onde o antigo nunca desapareceu por completo, apenas se deixou cobrir por algo novo. Por isso, escolhi Londres.

Há qualquer coisa em Londres que parece sempre prestes a revelar um segredo. Talvez seja a névoa que se instala sobre o rio ao fim da tarde, ou as ruas estreitas que mudam de nome sem aviso, ou os edifícios vitorianos que continuam de pé, silenciosos, à sombra de torres de vidro construídas séculos depois. Caminhar por Londres é caminhar por tempos diferentes, todos a existir ao mesmo tempo — e foi exactamente essa sensação que quis trazer para Entre Mundos.

Lembro-me de uma tarde de outono, perdida propositadamente numa zona da cidade que não conhecia, quando dei com um pequeno jardim escondido entre dois prédios — quase invisível, a não ser que se soubesse exactamente onde procurar. Fiquei ali sentada durante quase uma hora, e foi nesse banco que nasceu o capítulo em que Gabrielle encontra, por acaso, o primeiro sinal de que o seu mundo não é o único.

Para mim, Londres não é apenas pano de fundo. É guardiã. É a cidade que já viu tudo, que já escondeu segredos antigos sob as suas pedras, e que agora observa, em silêncio, uma nova fenda a abrir-se entre o que se vê e o que se sente. No coração desta cidade, uma sombra ganha forma — e foi assim que a escrevi: como alguém que já sabia, há muito tempo, que este dia chegaria.

"Há cidades que se visitam. E há cidades que nos guardam, à espera, até estarmos prontos para as ver."

Se um dia caminhares por Londres com este livro na cabeça, talvez olhes duas vezes para uma rua estreita, para uma porta antiga entre duas fachadas modernas, para a névoa que sobe do rio. E talvez, por um instante, sintas a mesma coisa que eu senti naquele jardim escondido — que a cidade está, de alguma forma, a observar de volta.

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